Helena

Helena, que é tantas pessoas, está presa em um labirinto.

Publicado em 28/06/2017

Enquanto começo a escrever esse texto, penso afetuosamente nas pessoas que o inspiraram.

Vejo seus olhos, um ao lado do outro. Percebo que são incrivelmente semelhantes. Todos olhos úmidos e incrivelmente negros, brilhantes, com seu ar de incompreensão.

À essas pessoas escrevo esse fragmento (que é pouquíssimo), pois sinto que sou, a cada um em uma medida, omisso e insuficiente ao deixar de expressar suas importâncias, que são absolutas. Experimento, como em uma colherada de suas essências, um sentimento claro de amor. Amor brando e persistente, constante e tímido em sua expressão.

Nas brumas de meu pensamento surge uma imagem, sem ser convidada: é Helena, que primeiro aparece como a princesa de Tróia. Ela se encontra em pé, perdida no deserto.

Helena tem olhos negros e úmidos como os daqueles que há pouco descrevi, e seu rosto ostenta os mesmos traços que deram origem à aisthésis grega.

Esse rosto que há pouco se fez tão material começa logo a se esvair, muda de forma junto das dunas esculpidas pelo vento, Helena não é mais troiana, mas apenas uma alma antiga que passa por incontáveis corpos, e seu nariz se alonga, suas maçãs do rosto se alargam, diminuem, Helena envelhece e logo fica mais nova, seu rosto inconstante exceto pelos olhos, que são sempre os mesmos olhos negros, negros escuros, brilhantes.

Helena fecha seus olhos e respira fundo. Quando os abre novamente, está em uma sala. A sala é vazia e tem apenas duas portas. Ela toca seu rosto e percebe que não muda mais, mas não sabe quem é. Ao girar a maçaneta, se vê em um quarto. Uma penteadeira, um espelho, uma cama gigantesca e mais uma porta se encontram a sua frente.

Ao olhar para o espelho, ela sentia refletir um rosto estranho a si mesma. Aquela que foi a princesa de tróia agora encarava uma jovem moça americana, com feições puritanas.

Helena abre a porta do quarto, que dá para um corredor com incontáveis outras portas.

Escolhe uma ao acaso e se vê em outra sala. Nessa sala, decorada aos modos de um Living Room Inglês, têm um divã e duas poltronas. Em uma das poltronas está sentado um homem que Helena sabe ser seu marido. Não se sente interessada por ele e se senta na outra poltrona. Ao seu lado está um novelo de lã e duas agulhas.

Sem saber que podia fazer outra coisa, Helena começa a tricotar. Agulha vai, agulha vem, em movimento incessante, ela não pode parar.

E assim acontece: A Princesa de Tróia tricota por anos, sem que percebesse. Seu rosto de jovem americana se enruga, suas mãos secam, e o novelo de lã jamais parece acabar. Helena é agora uma velha. Cansada, ela chora, sem nunca parar de movimentar suas agulhas.

E Helena cada vez mais fervorosamente tricota, não sabe por quê, ela sente seu tempo partir, pobrezinha, se desespera. O novelo de lã, infinito, nunca vai acabar.

Não sou eu, não é Teseu, nem Ulisses que poderiam lhe mostrar que do lado de fora, olhando pela janela, se escondia o mundo.

E que neste mundo, tanto faz seu novelo de lã, pois todos carregam um igual.

Portanto, Helena, memento mori e vive bem.