Quem é Contra a Inovação?

Publicado em 08/03/2016

Era véspera de Ano novo, 1879, quando Thomas Edison fez a primeira demonstração pública da lâmpada incandescente, na região rural e esparsamente populada de Menlo Park. Edison iluminou uma rua inteira com sua invenção. Cerca de três mil pessoas foram para aquela cidadezinha, anteriormente sem atrativos, para observar o “Mago de Menlo Park” e sua luz, fazendo com que a Companhia Ferroviária da Pennsylvania tivesse de aumentar o número de trens naquela linha. Pouco tempo depois, Edison transformou um galpão abandonado em uma fábrica de lâmpadas e começou a produção em escala industrial.


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Imagine, então, o que teria acontecido se houvesse existido uma “Associação dos Produtores de Lâmpadas de Querosene” ou “Associação dos Extratores de Óleo de Baleia” influente no governo americano, que tivesse poder para argumentar que “a lâmpada elétrica irá destruir milhões de empregos”, ou algo como “essa invenção pode ser perigosa, exigimos sua proibição em nome da segurança das pessoas”. Teríamos sido privados de uma inovação tão benéfica (e que hoje parece indispensável à vida cotidiana) em função de interesses de indústrias ultrapassadas?

De fato, não é possível saber. Mas isso pode gerar reflexões interessantes sobre as travas que impomos sobre a inovação, como ela acontece e como e muda nossas vidas. Todos os produtos que usamos hoje, de alguma maneira, quando inventados, geraram disrupção no mercado. Carros? Destruíram uma pujante e lucrativa indústria de carruagens e carroças. Televisões levaram consigo a maioria dos espectadores do rádio (e hoje a internet e redes sociais estão vencendo a batalha do entretenimento). E-mails acabaram com as cartas. Celulares, telefones, telégrafos. Esse processo foi descrito e popularizado pelo economista Joseph Schumpeter como a Destruição Criativa, e basicamente diz que inovações vêm acompanhadas de desequilíbrios no mercado, forçando-o a uma reorganização produtiva. Isso significa que, embora as indústrias de carruagens, quando tiveram de ceder à inovação e fechar as portas, deixando muitas pessoas desempregadas; que embora os operadores de telégrafo tiveram de aprender outro ofício quando foram substituídos pelos mais modernos telefones (e pela nova classe de trabalhadores, os telefonistas), são apenas consequências temporárias e necessárias à evolução da sociedade e da economia.

Isso lembra de alguma outra discussão que vem acontecendo ultimamente? Que tal Uber e Taxistas? Whatsapp e algumas Operadoras? Netflix e Operadoras de TV paga? A história sempre é a mesma: empresas inovadoras oferecem serviços melhores e mais baratos em diversas áreas, entrando em competição com os grupos oligopolistas que até ontem dominavam o mercado. Estes grupos, que começam a sentir no bolso as dores da falta de preferência do consumidor, agem de forma a usar o poder estatal para acabar com a concorrência e frear a inovação, e, em última instância, este processo de Destruição Criativa. Normalmente, eles usam aqueles argumentos furados já citados há pouco: são a “Associação dos Produtores de Lâmpadas de Querosene” de nosso tempo. E, infelizmente, já possuem gigantescas agências reguladoras ou mesmo leis (no caso dos taxistas) feitas para manter sua reserva de mercado. Eles apenas subsistem pelo poder do Estado e suas regulações; sendo assim, fazem o uso da força para impedir a concorrência, e portanto, são imorais e muitas vezes inviáveis economicamente, pois, na verdade, não suportam competição verdadeira.

E como podemos nós agir contra essa injustiça e em favor da liberdade?

Infelizmente, não podemos boicotar todos esses serviços, pois necessitamos de muitos deles e não temos escolha, na maioria das vezes. A maneira mais eficiente de cortar estas amarras de poder que nos prendem aos caprichos dos amigos do rei e ao corporativismo crônico no estado brasileiro é a tecnologia. Não podemos dizer que a Uber, por exemplo, vai ter impacto tão grande na história da humanidade como teve a lâmpada, pois, infelizmente, não conhecemos o futuro. Devemos, porém, abraçar essa inovação disruptiva, por menor que seja, pois estamos minando assim as bases do poder monopolista que, neste caso, nos manteve reféns de transporte caro, com muitas vezes veículos velhos e taxistas mal educados.

Uma das boas coisas de defender a liberdade é que podemos ser completamente coerentes com isso. Melhor ainda: ter coerência em favor da liberdade é muito fácil. Basta usar todas essas tecnologias que facilitam nossas vidas sabendo que estamos, de alguma forma, contribuindo para aquilo que acreditamos. Portanto, da próxima vez que você pegar um Uber, assistir um bom filme no Netflix ou ligar para alguém usando o WhatsApp, saiba que também está ajudando a fazer um mundo mais livre.